segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Caminhando - Parte 13

A nossa colheita tinha sido muito boa e eu esperava com o lucro daquele dia ter condições de pagar alguém que pudesse fazer meu irmão melhorar de saúde, a vida era difícil. Naquele dia, lembro como hoje, a feira estava movimentada. Pessoas vinham de todos os lados e vendi quase tudo que tinha trazido antes de acabar a manhã. Os poucos legumes e hortaliças que me restavam estavam reunidos sobre o meu tabuleiro e eu já estava me preparando para ir embora quando chegou um último cliente. Com um sorriso cordial ele me cumprimentou, notei que não era daqui pelo sotaque diferente e pela calma que contrastava com a pressa das pessoas da região.

-“Por favor, quanto pagarei por essas lindas batatas?”, perguntou.

-“Duas moedas, e, será três moedas se quiser levá-las com todos os outros produtos, promoção para acabar o estoque!”, ofereci animado.

-“Que ótimo preço, uma provisão divina!”, comentou o forasteiro ao aceitar a proposta.

Ao abrir a bolsa para pegar o dinheiro, sem que ele percebesse, notei algo que me deixou espantado: um livro igual ao nosso! O “livro bonito”! Não pude conter-me, tinha de perguntar, mas, sabendo das restrições locais à literatura estrangeira, usei de cautela, pois poderia ser uma armadilha.

-“Não deixei de notar que o amigo não é daqui, o que faz da vida?”, perguntei enquanto empacotava os legumes.

-“Sou professor e estou de passagem”, respondeu cautelosamente.

-“Ensina outros idiomas?”, disse de cabeça baixa enquanto contava o dinheiro.

-“É quase isso, eu chamaria de língua pura. Por que a pergunta, pode dizer?”, olhando ao redor.

-“O seu livro, eu já vi um igual”, falei isso tremendo de medo ao desmontar o tabuleiro.

-“Ah!, para que lado vai?”

-“Para lá”, mostrei uma direção contrária à da minha casa.

O senhor calmo passou a acompanhar-me e falou sobre as bênçãos do Reino e as boas promessas de Jeová. Explicou o que diziam aquelas letras e o que retratavam aquelas bonitas ilustrações. Tudo aquilo me deixou encantado! De certa forma, embora não soubéssemos o que dizia o livro parece que tínhamos captado a mensagem somente por ver o que havia sido desenhado. Viver num tempo melhor, livre da fome e da exploração, livre das doenças e da tristeza sem fim da morte era tudo que queríamos, ainda mais depois da morte do nosso pai e da enfermidade do meu amado irmão. Confessei-lhe que não morava por ali e pedi que se fosse possível no dia seguinte gostaria de tê-lo em nossa casa para que ele pudesse falar as mesmas coisas ao meu irmão e minha mãe.
Esse poderia ter sido o dia mais feliz da minha vida se não tivesse encontrado o meu irmão tão fraco ao chegar ao fim da tarde. Ele estava dormindo após um dia difícil e dolorido. Conversei com a vovó até tarde da noite sobre o que acontecera na esperança de que ele acordasse mais disposto para também ouvir as boas notícias. A manhã seguinte foi o dia mais triste da vida do papai, seu tio morreu e eu só pude dizer-lhe uma última coisa:

-“Mano, nós estaremos lá, existe um caminho!”

Dali para frente, eu e a vovó começamos a aprender cada dia mais sobre o Deus Verdadeiro Jeová e o que ele fará para todos os que lhe são leais, agora, vamos estudar pois pelo aroma que vem da cozinha, a mamãe já está com o almoço quase pronto e hoje ela tem a ajuda da vovó. Meninos vamos pedir a bênção de Jeová em oração sobre o nosso estudo?”
Quando estávamos no meio da oração, uma voz imensamente familiar chegou à entrada da casa me arrepiando dos pés à cabeça:

“Bom dia! Tem alguém em casa?”...

[Para entender melhor leia "Caminhando" desde a parte 1]

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Quem sou eu

Sou suspeito para falar de mim mesmo. Prefiro dizer que estou trabalhando para ter um bom nome.