segunda-feira, 30 de junho de 2008

Caminhando - Parte 3


Enquanto vou escalando uma florida montanha cheia de borboletas, penso comigo: “que lugar é esse?” Fazia realmente muito tempo que não sabia o que era isso, caminhar ao sol, correr, comer bem e dormir sem hora para acordar.
Que diferença! desde que meu pai morreu, como filho mais velho tive de trabalhar para o sustento da minha mãe e irmão caçula. O único trabalho que consegui foi justamente substituindo-o nas minas, era um trabalho duro e arriscado, mas era o que eu tinha. Acordava antes de o sol nascer e ao voltar para casa, devido a todo aquele pó, era reconhecido apenas pelos olhos. Minha mãe sempre tão dedicada já me esperava com o jantar pronto e quentinho, que embora não fosse muito para a minha fome, era delicioso. Meu irmão alegrava-se em me ver e pedia para que eu contasse alguma história para ele do “livro bonito” antes dele dormir; apesar do cansaço e de não entender nada daquele idioma, após o banho e o jantar eu inventava mil explicações para o que via incluindo aquela que fazia os olhos de papai brilhar: “um dia estaremos lá”.
Depois de quase 10 anos nas minas vi que não era tão forte quanto meu pai, ele resistiu por mais de 30 anos lá, eu não. Fiquei tão fraco e debilitado que provoquei grandes mudanças na minha família, tivemos de nos mudar para outro lugar onde meu irmão passou a trabalhar como agricultor ao passo que minha mãe cuidava de mim que mal podia me mexer sozinho na cama. Vivia muito triste mas para não me tornar um fardo para minha família que já batalhava tanto, ficava quieto e não reclamava de nada. Do mundo lá fora só via alguma coisa pelo que enxergava da janela e não era muito, pois minha visão não era mais a de antes. Será que a situação poderia ficar pior? Numa certa manhã fria, estava fraco demais para me mexer e só consegui abrir os olhos, vi minha amada mãe e meu irmão (que não sei por que não tinha ido trabalhar) sentados junto a mim. Queria perguntar o que houve mas não conseguia falar e contentei-me em apenas olhar para ambos. Vi tristeza nos seus olhos e meu coração doía de vê-los por algum motivo sofrer mais uma vez. Depois disso só me lembro de duas frases:
-“Filhinho, eu te amo!” e
-“Mano, nós estaremos lá, existe um caminho!”
(Para entender melhor leia "Caminhando" desde a Parte-1)

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Quem sou eu

Sou suspeito para falar de mim mesmo. Prefiro dizer que estou trabalhando para ter um bom nome.